quarta-feira, 14 de junho de 2017

André Domingues: Outro céu


Sobre a noite, sobre o suave sofrimento dos telhados,
sobre as cúpulas da alegria, o teu corpo perdia-se
numa sucessão de encontros desmesurados.
Aprendia a beber as suas próprias distâncias,
as suas mais amadas ciladas,
enquanto expulsava o blues metálico da solidão.
E não havia palavra que não estivesse diante
dessa tempestade que não se calasse.
Não havia veneno que não fosse sincero.
Não havia ciência que não reproduzisse um acaso
tremendo no centro do erro mais certo.
Não havia sequer um tecto
que não ocultasse outro céu.


André Domingues.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

René Char


Diz aquilo que o fogo hesita a dizer,
Sol do ar, claridade que ousa,
E morre porque o disseste por todos.


René Char. (Furor e mistério)

Maria João Cantinho: Antes disso havia a sombra



Antes disso havia a sombra
o pai a dormir a sesta
e o rumor do mar ao fundo,
talvez me falseie a imagem,
mas esse azul atlântico
a arder no vento, essa luz
única, a céu aberto
e tudo tão lento
porque o tempo não tinha distracções
nem se deixava comer por rigores
de trabalho ou de vida emprestada.

Nesse tempo eram as casas habitadas
e os sonhos lentos
as sombras da noite,
a confundir-se com os ramos das árvores,
alguns sonhos não se abatem nem morrem
são raízes que se fincam no corpo
cartografias improváveis, secretas,
e, quando galopa o silêncio,
descem até nós, chamam-nos
e arrastam-nos pelos cabelos.

Antes disso era esse azul atlântico
a crescer na tarde.


Maria João Cantinho in "Do Ínfimo". Coisas de Ler Edições, 2016, p 33.